eu, Lekan

sobre a vida e sobre amar

Guttho Lekan
twenty somethin' | SP
ator | gestor de eventos | artesão
⌇ um garoto que gosta de ler uns livros e escrever umas coisas. ⌇
São Paulo, SP

aos meninos sentimentais

Eu não consigo lembrar o momento exato em que "decidi" que escrever era uma coisa legal pra mim, só aconteceu. Sempre escrevi em agendas que eu chamava secretamente de diário porque na escola me disseram que meninos não podiam ter diário. Hoje, entendo que desde criança sempre teve muita coisa acontecendo na minha cabeça e nem sempre eu conseguia me expressar verbalmente como gostaria, às vezes por não encontrar as palavras certas e em outras por não me sentir confortável.


Uma vez levei minha agenda (que era diário, mas não conta pra ninguém) pra escola e alguns "amigos" pegaram sem a minha permissão, leram e riram do que estava escrito. No meio de tudo uma garota disse: "Nossa, você é tão sentimental! Nem parece menino!" Naquele momento eu não tive reação e ri com eles como se não fosse grande coisa. Mas, ao chegar em casa eu chorei até adormecer. Eu chorei porque era só uma criança que gostava de escrever e fazer umas colagens, e pessoas riram do que eu escrevia, das minhas mais sinceras palavras, eles riram da minha alma. Chorei porque aparentemente eu não era um menino, afinal de contas meninos não podem ser sentimentais. Chorei porque eu pensei que tinha algo de errado comigo. Dramático? Sim, mas isso foi o que senti naquela época, porque quando a gente é criança, tudo parece maior do que realmente é. Não sabemos o que está acontecendo (não que eu saiba agora) e estamos sempre tentando nos adaptar e encontrar um lugarzinho no turbilhão de coisas que acontecem à nossa volta. Aquilo foi algo muito pesado e triste pra mim. Desde então passei a ter vergonha do que eu escrevia e a odiar ser sentimental.

Tentei parar de escrever, mas foi em vão. Entendi logo que eu não conseguiria viver sem colocar as minhas palavras no papel, mas passou a ser uma coisa ainda mais escondida, as pessoas não podiam jamais saber que eu ainda fazia isso. E vivi assim por alguns anos. Aí descobri os blogs e comecei a escrever para estranhos, foi libertador. Claro que nunca divulgava, pois tinha pavor que alguém do meu ciclo social encontrasse. Quando alguém encontrava e mesmo que essa pessoa elogiasse, eu morria de vergonha. Mas, existia em mim uma coisa que não podia ser escondido sempre: eu ainda era sentimental demais. As pessoas continuaram me falando isso durante todo o tempo que estive no colégio, desde o incidente do meu não-diário até o fim do ensino médio. Eu era o garoto sentimental que vivia com a cara nos livros e gostava de escrever coisas sentimentais. Acreditei que tinha algo de errado comigo. Não tinha, né. Agora eu entendo que mesmo tendo vergonha e mesmo não querendo ser quem e como era, eu sempre fui capaz de fazer por mim algo que aquelas pessoas não eram capazes de fazer por elas mesmas: eu sempre fui sincero comigo mesmo e com o que eu sentia.

Tanta coisa mudou e aqui estou eu tendo muito orgulho de ser quem eu sou e de quem eu fui também. Eu sou esse garoto sentimental, sim. Eu choro quando estou emocionado sem medo e sem vergonha do que vão pensar de mim. Cada lágrima que derramo na frente de alguém é uma parte de mim que se liberta, um aviso tardio ao Guttho do passado de que vai ficar tudo bem. Esse novo projeto é uma lágrima que derramo para o mundo de uma maneira mais pessoal do que fazia nos meus blogs antigos.

Ano passado depois de uma aula meio doida de improvisação a minha professora de Jogos Teatrais e Improvisação me perguntou se eu escrevia e quando eu meio envergonhado respondi que sim, ela disse: "É que é muito gostoso ouvir a sua fala. É como se você deixasse a sua alma exposta pra gente." Isso me fez tremer por dentro, pois é exatamente assim que eu me sinto quando escrevo. Eu não sabia que precisava dessa validação, mas ouvir isso de uma pessoa que eu admiro foi como um encerramento do que me causou tanta insegurança. Obrigado, Lana!

Tenho memórias do Guttho de 8 anos lendo os livros do cachorrinho Samba, a primeira série de livros "sem figuras" que leu na vida, e escrevendo sobre a sua vida super movimentada e cheia de reviravoltas com colagens de recortes de revistas antigas em uma agenda azul que ganhou da mãe. Esse blog é mais ou menos um reflexo disso e eu o dedico a todos os meninos que assim como eu, são sentimentais demais e por isso nem parecem meninos. ❤️ Sejam bem vindes!

Um abraço apertado e um sorriso sincero! ✨

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